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Arquivo Instável: tradução de afetos em falhas visuais
Arquivo Instável: tradução de afetos em falhas visuais
Caetano, Karen Neme Mendes; Venturelli, Suzete
Artigo:
1. Introdução O cenário visual atual é impregnado pelo que o teórico cultural Byung-Chul Han (2019) define como estética do liso: imagens hiperpolidas e desprovidas de imperfeições. Desde filtros em redes sociais até sistemas de inteligência artificial generativa, o ruído e o erro são sistematicamente eliminados, uniformizando a experiência visual. Diante disso, a presente pesquisa contesta essa normatividade por meio do aplicativo web Arquivo Instável. Como parte de uma contranarrativa, a ferramenta desestabiliza imagens ao aplicar distorções nomeadas a partir de uma taxonomia de afetos instáveis. Esse resumo documenta o desafio metodológico vital do projeto: o processo de tradução de estados emocionais em efeitos visuais programados. 2. Metodologia A metodologia inverte a lógica convencional dos aplicativos de edição de imagens, efeito- centrados. Ao invés de partir de uma categoria técnica para alcançar um resultado estético, o processo é afeto-centrado: parte-se de um estado emocional para então traduzi-lo em manipulação visual. O ponto de partida foi a elaboração de uma taxonomia de afetos instáveis, que orientou a criação dos efeitos visuais para o Arquivo Instável. Foi adotada a abordagem do creative coding, empregando a biblioteca de programação p5.js, voltada para artistas e designers, em virtude de sua sintaxe acessível e de sua natureza experimental. A falta de experiência anterior em programação revelou-se uma força metodológica. O desenvolvimento ocorreu por meio de “alianças instáveis”, formadas pela colaboração com quatro sistemas de inteligência artificial generativa: ChatGPT, Claude, Gemini e Perplexity. O fluxo consistia em fornecer à IA o nome do afeto, sua descrição e um modelo visual, recebendo em contrapartida um código-fonte inicial, em seguida refinado por meio de um processo iterativo de tentativa e erro. Por fim, visando fortalecer a crítica à perfeição técnica, foram incorporados ao código o redimensionamento das imagens para baixa resolução e a randomização controlada de parâmetros, que impede resultados idênticos e garante a imprevisibilidade. 3. Resultados A tradução dos estados emocionais em código materializou-se na criação da “biblioteca final de falhas”: uma gramática visual singular, composta por 16 efeitos, em que cada distorção corresponde a um afeto específico. Assim, a biblioteca revela a relação entre os conceitos da taxonomia e as manipulações visuais produzidas. As figuras 1 e 2 ilustram essa conexão. A Figura 1, que representa o afeto “Histeria de pacotes”, expressa de forma visual a noção de sobrecarga sistêmica através de uma multiplicação caótica de fragmentos da imagem. A Figura 2, resultado do efeito “Ruptura de camada”, expressa a ideia de desintegração ao fragmentar a imagem em camadas diagonais desordenadas, rompendo sua coesão original. 4. Conclusão Em síntese, a pesquisa apresenta um método de investigação no campo do design que combina a interpretação de conceitos afetivos, a prática artística e a programação. A descoberta principal está na cooperação com inteligências artificiais generativas. As “alianças instáveis” estabelecidas com esses sistemas possibilitaram converter a falta de experiência técnica, uma limitação, em elemento metodológico, consolidando um processo de criação (e aprendizagem) via falha, em consonância com a proposta conceitual do projeto. Essa abordagem, portanto, indica caminhos onde o código pode ser apropriado por artistas e designers não como barreira, mas como recurso expressivo para experimentação e crítica estética. A correspondência entre estados afetivos e processos computacionais visuais pode estabelecer novos modos de produção imagética, onde a subjetividade humana se articula à lógica algorítmica e gera híbridos que estimulam reflexão sobre os próprios processos de criação e percepção. Trata- se, no fundo, de um pequeno manifesto pela desobediência do olhar contra a tirania da perfeição visual.
1. Introdução O cenário visual atual é impregnado pelo que o teórico cultural Byung-Chul Han (2019) define como estética do liso: imagens hiperpolidas e desprovidas de imperfeições. Desde filtros em redes sociais até sistemas de inteligência artificial generativa, o ruído e o erro são sistematicamente eliminados, uniformizando a experiência visual. Diante disso, a presente pesquisa contesta essa normatividade por meio do aplicativo web Arquivo Instável. Como parte de uma contranarrativa, a ferramenta desestabiliza imagens ao aplicar distorções nomeadas a partir de uma taxonomia de afetos instáveis. Esse resumo documenta o desafio metodológico vital do projeto: o processo de tradução de estados emocionais em efeitos visuais programados. 2. Metodologia A metodologia inverte a lógica convencional dos aplicativos de edição de imagens, efeito- centrados. Ao invés de partir de uma categoria técnica para alcançar um resultado estético, o processo é afeto-centrado: parte-se de um estado emocional para então traduzi-lo em manipulação visual. O ponto de partida foi a elaboração de uma taxonomia de afetos instáveis, que orientou a criação dos efeitos visuais para o Arquivo Instável. Foi adotada a abordagem do creative coding, empregando a biblioteca de programação p5.js, voltada para artistas e designers, em virtude de sua sintaxe acessível e de sua natureza experimental. A falta de experiência anterior em programação revelou-se uma força metodológica. O desenvolvimento ocorreu por meio de “alianças instáveis”, formadas pela colaboração com quatro sistemas de inteligência artificial generativa: ChatGPT, Claude, Gemini e Perplexity. O fluxo consistia em fornecer à IA o nome do afeto, sua descrição e um modelo visual, recebendo em contrapartida um código-fonte inicial, em seguida refinado por meio de um processo iterativo de tentativa e erro. Por fim, visando fortalecer a crítica à perfeição técnica, foram incorporados ao código o redimensionamento das imagens para baixa resolução e a randomização controlada de parâmetros, que impede resultados idênticos e garante a imprevisibilidade. 3. Resultados A tradução dos estados emocionais em código materializou-se na criação da “biblioteca final de falhas”: uma gramática visual singular, composta por 16 efeitos, em que cada distorção corresponde a um afeto específico. Assim, a biblioteca revela a relação entre os conceitos da taxonomia e as manipulações visuais produzidas. As figuras 1 e 2 ilustram essa conexão. A Figura 1, que representa o afeto “Histeria de pacotes”, expressa de forma visual a noção de sobrecarga sistêmica através de uma multiplicação caótica de fragmentos da imagem. A Figura 2, resultado do efeito “Ruptura de camada”, expressa a ideia de desintegração ao fragmentar a imagem em camadas diagonais desordenadas, rompendo sua coesão original. 4. Conclusão Em síntese, a pesquisa apresenta um método de investigação no campo do design que combina a interpretação de conceitos afetivos, a prática artística e a programação. A descoberta principal está na cooperação com inteligências artificiais generativas. As “alianças instáveis” estabelecidas com esses sistemas possibilitaram converter a falta de experiência técnica, uma limitação, em elemento metodológico, consolidando um processo de criação (e aprendizagem) via falha, em consonância com a proposta conceitual do projeto. Essa abordagem, portanto, indica caminhos onde o código pode ser apropriado por artistas e designers não como barreira, mas como recurso expressivo para experimentação e crítica estética. A correspondência entre estados afetivos e processos computacionais visuais pode estabelecer novos modos de produção imagética, onde a subjetividade humana se articula à lógica algorítmica e gera híbridos que estimulam reflexão sobre os próprios processos de criação e percepção. Trata- se, no fundo, de um pequeno manifesto pela desobediência do olhar contra a tirania da perfeição visual.
Palavras-chave: Pesquisa em Design, Creative coding, Estética digital, Inteligência artificial, UAM Pesquisa em Design, Creative coding, Estética digital, Inteligência artificial, UAM
DOI: 10.5151/1JPPD-0125
Referências bibliográficas
- [1] HAN, Byung-Chul. A salvação do belo. 1. ed. Petrópolis: Vozes, 2019.
Como citar:
Caetano, Karen Neme Mendes; Venturelli, Suzete; "Arquivo Instável: tradução de afetos em falhas visuais", p-326-328.
In: 1º JPPD.
São Paulo: Blucher,
2026.
ISSN 23186968,
DOI 10.5151/1JPPD-0125
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Karen Neme Mendes Caetano, Suzete Venturelli, Arquivo Instável: tradução de afetos em falhas visuais, Blucher Design Proceedings, Volume 14, 2026, Pages 326-328, ISSN 23186968, http://dx.doi.org/10.5151/1JPPD-0125 (www.proceedings.blucher.com.br/article-details/arquivo-instavel-traducao-de-afetos-em-falhas-visuais) Palavras-chave:: Pesquisa em Design, Creative coding, Estética digital, Inteligência artificial, UAM;