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Desconexão crítica: desafios da Educação Superior em Moda no Brasil para integrar práticas de sustentabilidade escaláveis e o diálogo academia- indústria
Desconexão crítica: desafios da Educação Superior em Moda no Brasil para integrar práticas de sustentabilidade escaláveis e o diálogo academia- indústria
Gonzaga Sommermeyer, Liliane; Cunha, Joana; Loschiavo dos Santos, Maria Cecília
Artigo:
A sustentabilidade é, na contemporaneidade, um tema indissociável e de urgência crítica quando se discute a indústria da moda, considerando a amplitude de seus impactos ambientais e sociais. A relevância dessa discussão ultrapassa a crítica ao modelo linear de produção e alcança questões estruturais relacionadas ao consumo, ao descarte, às condições de trabalho e aos direitos humanos. Globalmente, a indústria da moda é reconhecida como uma das maiores geradoras de resíduos sólidos (Gai et al., 2022), o que evidencia a necessidade de transformações profundas em seus processos produtivos. No Brasil, o ensino superior em Moda apresenta uma abordagem ainda fragmentada no que se refere à sustentabilidade. Desde o surgimento dos primeiros cursos, na década de 1990, observa-se a dificuldade em desvincular os currículos de uma perspectiva eurocêntrica, muitas vezes deslocada das realidades e necessidades internas do país (Lima, 2018). Especificamente no que diz respeito à sustentabilidade, sua inserção mais consistente em disciplinas e debates ocorreu sobretudo após a tragédia do Rana Plaza, em Bangladesh, em 2013, que expôs de forma contundente a crise ética e de segurança do setor (Martin et al., 2021). Nesse contexto, torna-se fundamental investigar de que maneira a sustentabilidade vem sendo abordada nos cursos de Bacharelado em Moda no Brasil, considerando tanto as matrizes curriculares quanto as percepções do corpo docente, a fim de compreender limites, possibilidades e desafios para a consolidação de práticas sustentáveis efetivas e escaláveis. O presente estudo é proveniente de uma tese de doutorado em Design e caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa, de abordagem fenomenológica. A investigação baseou-se em entrevistas semiestruturadas realizadas com professores de cursos de Bacharelado em Moda de diferentes instituições brasileiras. Os depoimentos foram examinados por meio da análise do discurso, buscando compreender percepções, sentidos e posicionamentos acerca da sustentabilidade na formação superior. Paralelamente, realizou-se uma análise de conteúdo das matrizes curriculares e ementas dos cursos, com o objetivo de identificar a presença, a profundidade e os enfoques atribuídos ao tema. A triangulação desses dados permitiu compreender como a sustentabilidade é concebida, operacionalizada e tensionada no contexto da educação superior em Moda. Os resultados indicam que, embora exista reconhecimento da importância da sustentabilidade por parte do corpo docente, observa-se uma tentativa ainda limitada de implementação de práticas sustentáveis de forma estruturada e escalável. Em muitos casos, emergem sentimentos de distanciamento e pouco otimismo quanto à possibilidade de mudanças efetivas no setor. Essa dificuldade revela-se multifatorial. Destaca-se a falta de abertura institucional para mudanças curriculares mais profundas, uma vez que muitas instituições priorizam responder às demandas imediatas do mercado de consumo, em detrimento de questões socioambientais urgentes. Soma-se a isso a resistência de parte dos estudantes em incorporar a sustentabilidade em seus projetos, frequentemente associando o conceito apenas ao reuso de materiais ou a técnicas artesanais, sem uma compreensão sistêmica e estratégica. O crescimento contínuo do fast fashion, baseado na lógica de produção, consumo e descarte acelerados, intensifica esse cenário e contribui para a manutenção do sistema linear. Como consequência, os futuros profissionais tendem a reproduzir modelos tradicionais, demonstrando resistência a mecanismos inovadores em seus próprios processos criativos. Constata-se que a transformação rumo a uma produção circular não depende exclusivamente do engajamento individual de professores e estudantes, mas, sobretudo, da vontade política das instituições de ensino e do fortalecimento de políticas públicas, considerando- se a inexistência de legislação brasileira que torne obrigatória a inclusão de práticas sustentáveis nos processos produtivos da moda. Diante disso, torna-se imprescindível fortalecer a reflexão sobre sustentabilidade em sala de aula de forma sistemática e autônoma, integrando problemas reais a soluções possíveis e escaláveis (Papanek, 1971). A interdisciplinaridade e o diálogo entre academia e indústria configuram-se como elementos centrais para reduzir distanciamentos e fomentar uma formação mais crítica, contextualizada e comprometida com a transformação do setor
A sustentabilidade é, na contemporaneidade, um tema indissociável e de urgência crítica quando se discute a indústria da moda, considerando a amplitude de seus impactos ambientais e sociais. A relevância dessa discussão ultrapassa a crítica ao modelo linear de produção e alcança questões estruturais relacionadas ao consumo, ao descarte, às condições de trabalho e aos direitos humanos. Globalmente, a indústria da moda é reconhecida como uma das maiores geradoras de resíduos sólidos (Gai et al., 2022), o que evidencia a necessidade de transformações profundas em seus processos produtivos. No Brasil, o ensino superior em Moda apresenta uma abordagem ainda fragmentada no que se refere à sustentabilidade. Desde o surgimento dos primeiros cursos, na década de 1990, observa-se a dificuldade em desvincular os currículos de uma perspectiva eurocêntrica, muitas vezes deslocada das realidades e necessidades internas do país (Lima, 2018). Especificamente no que diz respeito à sustentabilidade, sua inserção mais consistente em disciplinas e debates ocorreu sobretudo após a tragédia do Rana Plaza, em Bangladesh, em 2013, que expôs de forma contundente a crise ética e de segurança do setor (Martin et al., 2021). Nesse contexto, torna-se fundamental investigar de que maneira a sustentabilidade vem sendo abordada nos cursos de Bacharelado em Moda no Brasil, considerando tanto as matrizes curriculares quanto as percepções do corpo docente, a fim de compreender limites, possibilidades e desafios para a consolidação de práticas sustentáveis efetivas e escaláveis. O presente estudo é proveniente de uma tese de doutorado em Design e caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa, de abordagem fenomenológica. A investigação baseou-se em entrevistas semiestruturadas realizadas com professores de cursos de Bacharelado em Moda de diferentes instituições brasileiras. Os depoimentos foram examinados por meio da análise do discurso, buscando compreender percepções, sentidos e posicionamentos acerca da sustentabilidade na formação superior. Paralelamente, realizou-se uma análise de conteúdo das matrizes curriculares e ementas dos cursos, com o objetivo de identificar a presença, a profundidade e os enfoques atribuídos ao tema. A triangulação desses dados permitiu compreender como a sustentabilidade é concebida, operacionalizada e tensionada no contexto da educação superior em Moda. Os resultados indicam que, embora exista reconhecimento da importância da sustentabilidade por parte do corpo docente, observa-se uma tentativa ainda limitada de implementação de práticas sustentáveis de forma estruturada e escalável. Em muitos casos, emergem sentimentos de distanciamento e pouco otimismo quanto à possibilidade de mudanças efetivas no setor. Essa dificuldade revela-se multifatorial. Destaca-se a falta de abertura institucional para mudanças curriculares mais profundas, uma vez que muitas instituições priorizam responder às demandas imediatas do mercado de consumo, em detrimento de questões socioambientais urgentes. Soma-se a isso a resistência de parte dos estudantes em incorporar a sustentabilidade em seus projetos, frequentemente associando o conceito apenas ao reuso de materiais ou a técnicas artesanais, sem uma compreensão sistêmica e estratégica. O crescimento contínuo do fast fashion, baseado na lógica de produção, consumo e descarte acelerados, intensifica esse cenário e contribui para a manutenção do sistema linear. Como consequência, os futuros profissionais tendem a reproduzir modelos tradicionais, demonstrando resistência a mecanismos inovadores em seus próprios processos criativos. Constata-se que a transformação rumo a uma produção circular não depende exclusivamente do engajamento individual de professores e estudantes, mas, sobretudo, da vontade política das instituições de ensino e do fortalecimento de políticas públicas, considerando- se a inexistência de legislação brasileira que torne obrigatória a inclusão de práticas sustentáveis nos processos produtivos da moda. Diante disso, torna-se imprescindível fortalecer a reflexão sobre sustentabilidade em sala de aula de forma sistemática e autônoma, integrando problemas reais a soluções possíveis e escaláveis (Papanek, 1971). A interdisciplinaridade e o diálogo entre academia e indústria configuram-se como elementos centrais para reduzir distanciamentos e fomentar uma formação mais crítica, contextualizada e comprometida com a transformação do setor
Palavras-chave: Sustentabilidade na Moda; Bacharelado em Moda; Pesquisa em Design Sustentabilidade na Moda; Bacharelado em Moda; Pesquisa em Design
DOI: 10.5151/1JPPD-0051
Referências bibliográficas
- [1] GAI, Yuxin et al. Investigating the eco-efficiency of China's textile industry based on a firm-level analysis. Science of the Total Environment, v. 833, p. 155075, 2022.
- [2] LIMA, Verena Ferreira Tidei de. Ensino superior em design de moda no Brasil: práxis e (in)sustentabilidade. 2018. Tese (Doutorado em Design) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2018.
- [3] MARTIN, Paula et al. Moda e tragédia: os impactos do desabamento de Rana Plaza nos modelos fast fashion e slow fashion. Revista Poliedro, v. 5, n. 5, p. 52–81, 2021.
- [4] PAPANEK, Victor. Design for the real world: human ecology and social change. New York: Pantheon Books, 1971.
Como citar:
Gonzaga Sommermeyer, Liliane; Cunha, Joana; Loschiavo dos Santos, Maria Cecília; "Desconexão crítica: desafios da Educação Superior em Moda no Brasil para integrar práticas de sustentabilidade escaláveis e o diálogo academia- indústria", p-136-137.
In: 1º JPPD.
São Paulo: Blucher,
2026.
ISSN 23186968,
DOI 10.5151/1JPPD-0051
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TY - CONF T1 - Desconexão crítica: desafios da Educação Superior em Moda no Brasil para integrar práticas de sustentabilidade escaláveis e o diálogo academia- indústria JO - Blucher Design Proceedings VL - 14 IS - 3 SP - 136 EP - 137 PY - 2026 T2 - I Jornada Paulista de Pesquisa em Design AU - , , SN - 23186968 DO - http://dx.doi.org/10.5151/1JPPD-0051 UR - www.proceedings.blucher.com.br/article-details/desconexao-critica-desafios-da-educacao-superior-em-moda-no-brasil-para-integrar-praticas-de-sustentabilidade-escalaveis-e-o-dialogo-academia-industria KW - Sustentabilidade na Moda; Bacharelado em Moda; Pesquisa em Design ER -
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Liliane Gonzaga Sommermeyer, Joana Cunha, Maria Cecília Loschiavo dos Santos, Desconexão crítica: desafios da Educação Superior em Moda no Brasil para integrar práticas de sustentabilidade escaláveis e o diálogo academia- indústria, Blucher Design Proceedings, Volume 14, 2026, Pages 136-137, ISSN 23186968, http://dx.doi.org/10.5151/1JPPD-0051 (www.proceedings.blucher.com.br/article-details/desconexao-critica-desafios-da-educacao-superior-em-moda-no-brasil-para-integrar-praticas-de-sustentabilidade-escalaveis-e-o-dialogo-academia-industria) Palavras-chave:: Sustentabilidade na Moda; Bacharelado em Moda; Pesquisa em Design;