Blucher Design Proceedings
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Design e luteria: a desafiadora conexão entre saberes que ecoaram no fazer do mestre Elivaldo Ribeiro, de São Luís - MA
Design e luteria: a desafiadora conexão entre saberes que ecoaram no fazer do mestre Elivaldo Ribeiro, de São Luís - MA
Guilhon, David; Bergmann Filho, Juarez; Pinheiro, Olímpio José
Artigo:
1. Narrativas, desafios, adaptações e descobertas A pergunta que nos moveu foi simples e profunda: o que design e luteria têm “a ver” um com o outro? Dessa inquietação nasceu uma pesquisa que busca construir pontes entre dois saberes historicamente afastados, mas conectados por práticas projetuais. Inicialmente, planejamos comparar diferentes luthiers, analisando estratégias de projetação para propor uma metodologia de design aplicada à criação e construção de instrumentos. Contudo, a realidade nos redesenhou. Trabalhamos um formulário online com 49 perguntas distribuídas em onze eixos de investigação, mas poucos artesãos responderam. Diante da resistência e desconfiança encontradas, mesmo apresentando termos de consentimento lido e esclarecido, compreendemos que era preciso escutar antes de propor. Mesmo com seis respondentes, traçamos um perfil da luteria na Ilha do Maranhão: predominância do autodidatismo, ausência de formação formal e processos criativos pautados na ergonomia, estética e qualidade acústica. Essa prática já indicava conexões reais com o design. Paralelamente, ao mergulhar no estado da arte, por meio de revisão bibliográfica assistemática, como contato primário literário. Ainda incipiente, partimos para uma sistematização buscando por conteúdos acadêmicos nos últimos 20 anos em que design e luteria aparecessem em artigos, dissertações e teses de bancos de dados, como BTDT e Banco de Teses. Com esta revisão bibliográfica sistemático encontramos um vazio epistemológico: raros são os estudos que aproximam design e luteria no Brasil. Alargamos então a revisão, incluindo manuais e revistas. Esta nova RBA nos deu algum fôlego, embora a lacuna persistisse. Aprofundamos o diálogo com campos como etnomusicologia, ergonomia, sustentabilidade e patrimônio cultural, encontrando em Bates (2012), Dawe (2013) e Johnson (1995) importantes referências. Bates, ao discutir a relação entre atoylie (ateliê) e fabrika (fábrica), ajudou-nos a superar a visão romantizada da luteria e situá-la em redes mais amplas de saberes e práticas. No campo do design, como Bonsiepe (2011), Bürdek (2006), Löbach (2001), Manzini e Vezzoli (2011) fundamentaram teoricamente a travessia. Seguindo protocolos de escolha do artesão a ser estudado (mais antigo em atividade, fabrica réplicas e linhas próprias e faz manutenções superficiais e estruturais), logo tratamos com o mestre Elivaldo Ribeiro – luthier autodidata com quatro décadas de ofício. A liturgia deste estudo previu entrevistas semiestruturadas com registros audiovisuais para que a espontaneidade fosse preservada, bem como a confiança, a ética e a escuta. Sua oficina revelou um universo projetual que não se ancora em plantas técnicas, mas em gestos, escuta da madeira e adaptação constante. Para acompanhá-lo, recorremos a diários de campo, entrevistas e registros audiovisuais que hoje somam quase duzentas páginas, documentando um fazer técnico e profundamente enraizado no contexto local. Compreendemos que metodologia não é estrutura fixa, mas organismo vivo em diálogo com a realidade. Também aprendemos que os tempos da academia e da oficina não coincidem: enquanto a universidade segue cronogramas lineares, o fazer vernacular se orienta por ritmos sensíveis e lentos. Como lembra Bates, é nesse trânsito entre atoylie e fabrika que emergem os diálogos possíveis entre design e luteria. A força desta investigação não reside apenas em suas respostas, mas no percurso vivido. O estudo de caso único, longe de ser limitação, revelou-se método fértil para enxergar um universo pouco explorado. Reconhecemos no fazer do luthier modos legítimos de expressão do design vernacular. Este é, portanto, um relato de travessia: uma pesquisa em construção que encontra potência na escuta, na flexibilidade e na abertura.
1. Narrativas, desafios, adaptações e descobertas A pergunta que nos moveu foi simples e profunda: o que design e luteria têm “a ver” um com o outro? Dessa inquietação nasceu uma pesquisa que busca construir pontes entre dois saberes historicamente afastados, mas conectados por práticas projetuais. Inicialmente, planejamos comparar diferentes luthiers, analisando estratégias de projetação para propor uma metodologia de design aplicada à criação e construção de instrumentos. Contudo, a realidade nos redesenhou. Trabalhamos um formulário online com 49 perguntas distribuídas em onze eixos de investigação, mas poucos artesãos responderam. Diante da resistência e desconfiança encontradas, mesmo apresentando termos de consentimento lido e esclarecido, compreendemos que era preciso escutar antes de propor. Mesmo com seis respondentes, traçamos um perfil da luteria na Ilha do Maranhão: predominância do autodidatismo, ausência de formação formal e processos criativos pautados na ergonomia, estética e qualidade acústica. Essa prática já indicava conexões reais com o design. Paralelamente, ao mergulhar no estado da arte, por meio de revisão bibliográfica assistemática, como contato primário literário. Ainda incipiente, partimos para uma sistematização buscando por conteúdos acadêmicos nos últimos 20 anos em que design e luteria aparecessem em artigos, dissertações e teses de bancos de dados, como BTDT e Banco de Teses. Com esta revisão bibliográfica sistemático encontramos um vazio epistemológico: raros são os estudos que aproximam design e luteria no Brasil. Alargamos então a revisão, incluindo manuais e revistas. Esta nova RBA nos deu algum fôlego, embora a lacuna persistisse. Aprofundamos o diálogo com campos como etnomusicologia, ergonomia, sustentabilidade e patrimônio cultural, encontrando em Bates (2012), Dawe (2013) e Johnson (1995) importantes referências. Bates, ao discutir a relação entre atoylie (ateliê) e fabrika (fábrica), ajudou-nos a superar a visão romantizada da luteria e situá-la em redes mais amplas de saberes e práticas. No campo do design, como Bonsiepe (2011), Bürdek (2006), Löbach (2001), Manzini e Vezzoli (2011) fundamentaram teoricamente a travessia. Seguindo protocolos de escolha do artesão a ser estudado (mais antigo em atividade, fabrica réplicas e linhas próprias e faz manutenções superficiais e estruturais), logo tratamos com o mestre Elivaldo Ribeiro – luthier autodidata com quatro décadas de ofício. A liturgia deste estudo previu entrevistas semiestruturadas com registros audiovisuais para que a espontaneidade fosse preservada, bem como a confiança, a ética e a escuta. Sua oficina revelou um universo projetual que não se ancora em plantas técnicas, mas em gestos, escuta da madeira e adaptação constante. Para acompanhá-lo, recorremos a diários de campo, entrevistas e registros audiovisuais que hoje somam quase duzentas páginas, documentando um fazer técnico e profundamente enraizado no contexto local. Compreendemos que metodologia não é estrutura fixa, mas organismo vivo em diálogo com a realidade. Também aprendemos que os tempos da academia e da oficina não coincidem: enquanto a universidade segue cronogramas lineares, o fazer vernacular se orienta por ritmos sensíveis e lentos. Como lembra Bates, é nesse trânsito entre atoylie e fabrika que emergem os diálogos possíveis entre design e luteria. A força desta investigação não reside apenas em suas respostas, mas no percurso vivido. O estudo de caso único, longe de ser limitação, revelou-se método fértil para enxergar um universo pouco explorado. Reconhecemos no fazer do luthier modos legítimos de expressão do design vernacular. Este é, portanto, um relato de travessia: uma pesquisa em construção que encontra potência na escuta, na flexibilidade e na abertura.
Palavras-chave: Design de Produto; Artesania; Luteria; Instrumentos musicais de cordas; Metodologias artesanais e projetuais do design. Design de Produto; Artesania; Luteria; Instrumentos musicais de cordas; Metodologias artesanais e projetuais do design.
DOI: 10.5151/1JPPD-0009
Referências bibliográficas
- [1] BATES, Eliot. Social Life of Musical Instruments. Ethnomusicology. Vol 56, n 3, 2012 pp. 363-395.
- [2] BONSIEPE, Gui. Design, cultura e sociedade: reflexões sobre o design industrial. São Paulo: Blucher, 2011.
- [3] BÜRDEK, Bernhard E. História, teoria e prática do design de produtos. trad. Freddy Van Camp. São Paulo: Edgard Blücher, 2006.
- [4] DAWE, Kevin. Guitar Ethnographies: Performance, Technology and Material Culture. Ethnomusicology Forum, 2013. Vol. 22, No. 1, 1-25. http://dx.doi.org/10.1080/17411912.2013.774158
- [5] JOHNSON, Henry M. An Ethnomusicology of Musical Instruments: form, function, and meaning. JASO 26/3 (1995). pp 257-269.
- [6] LÖBACH, B. Design industrial: bases para a configuração dos produtos industriais. s. l.: Edgar Blücher, 2001.
- [7] MANZINI, Ezio. Design para a inovação social e sustentabilidade: comunidades criativas, organizações colaborativas e novas redes projetuais. trad. Carla Cipolla. Rio de Janeiro: E-papers, 2008.
- [8] MANZINI, E.; VEZZOLI, C. O desenvolvimento de produtos sustentáveis: os requisitos ambientais dos produtos industriais. Tradução: Astrid de Carvalho. 1ª ed. 3ª reimpressão. 368 f. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2011.
Como citar:
Guilhon, David; Bergmann Filho, Juarez; Pinheiro, Olímpio José; "Design e luteria: a desafiadora conexão entre saberes que ecoaram no fazer do mestre Elivaldo Ribeiro, de São Luís - MA", p-25-27.
In: 1º JPPD.
São Paulo: Blucher,
2026.
ISSN 23186968,
DOI 10.5151/1JPPD-0009
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TY - CONF T1 - Design e luteria: a desafiadora conexão entre saberes que ecoaram no fazer do mestre Elivaldo Ribeiro, de São Luís - MA JO - Blucher Design Proceedings VL - 14 IS - 3 SP - 25 EP - 27 PY - 2026 T2 - I Jornada Paulista de Pesquisa em Design AU - , , SN - 23186968 DO - http://dx.doi.org/10.5151/1JPPD-0009 UR - www.proceedings.blucher.com.br/article-details/design-e-luteria-a-desafiadora-conexao-entre-saberes-que-ecoaram-no-fazer-do-mestre-elivaldo-ribeiro-de-sao-luis-ma KW - Design de Produto; Artesania; Luteria; Instrumentos musicais de cordas; Metodologias artesanais e projetuais do design. ER -
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journal="Blucher Design Proceedings",
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number="3",
pages="25 - 27",
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David Guilhon, Juarez Bergmann Filho, Olímpio José Pinheiro, Design e luteria: a desafiadora conexão entre saberes que ecoaram no fazer do mestre Elivaldo Ribeiro, de São Luís - MA, Blucher Design Proceedings, Volume 14, 2026, Pages 25-27, ISSN 23186968, http://dx.doi.org/10.5151/1JPPD-0009 (www.proceedings.blucher.com.br/article-details/design-e-luteria-a-desafiadora-conexao-entre-saberes-que-ecoaram-no-fazer-do-mestre-elivaldo-ribeiro-de-sao-luis-ma) Palavras-chave:: Design de Produto; Artesania; Luteria; Instrumentos musicais de cordas; Metodologias artesanais e projetuais do design.;