Blucher Design Proceedings
- Todas as edições
- Última edição
- Equipe de Produção
- ISSN 2318-6968
Fabricação de papel artesanal a partir de fibras vegetais como recurso expressivo
Fabricação de papel artesanal a partir de fibras vegetais como recurso expressivo
Pinto, Julia Junqueira Ribeiro; Mazzilli, Clice de Toledo Sanjar
Artigo:
1. Introdução O artista e designer italiano Bruno Munari diz “[...] cada papel comunica sua qualidade, e isso é já uma razão para ser usado como comunicante” (Munari, 1998, p. 213). Explorando essa ideia, ele propôs, em 1949, uma série chamada Livros Ilegíveis, livros sem texto que instigam uma leitura sensorial da matéria, contrapondo-se à ideia do papel como simples suporte da leitura. No mesmo sentido, a artista Fayga Ostrower considera que a expressão “suporte” para se referir ao papel é equivocada, uma vez que ele possui qualidades que participam da expressividade da obra artística (Ostrower, 1999, p. 125). Partindo dessas colocações, essa pesquisa assume que o papel – e em especial o papel artesanal – carrega e transmite valores formais, plásticos e simbólicos. Objetiva, portanto, explorar e articular tais valores como expressão gráfica na construção de linguagem para a elaboração de livros, fazendo uso de fibras vegetais para a fabricação. 2. Procedimentos metodológicos Com natureza qualitativa e exploratória, a pesquisa é fundamentada na articulação entre teoria e prática. Entende-se, aqui, que o trabalho artesanal prático é também um trabalho intelectual. Iniciou-se com um levantamento sobre a história da fabricação de papel artesanal no Brasil, com o livro fundamental de Thérèse Hofmann Gatti, e sobre artistas que exploraram sua produção e materialidade, como Amelia Toledo e Antônio Dias. A pesquisa baseou-se em registros fotográficos, catálogos e livros. Verificou-se a escassez de publicações acadêmicas no país sobre a fabricação de papel artesanal com fibras vegetais ou sobre o uso desses papéis como recurso expressivo, sendo a primeira datada de 1991. Não foram encontradas pesquisas sobre o vegetal japonês kozo [Broussonetia papyrifera; Broussonetia kajinoki], planta tradicional na produção de papel, embora cultivada no Brasil desde 1976, conforme o livro Washi, de Koichi Matsuda (1994), uma das raras obras sobre o tema em português. Assim, evidenciou-se a necessidade de registrar o manejo e o processamento dessa fibra, utilizada nos experimentos práticos. A confecção artesanal permite o uso de diferentes plantas e o aproveitamento de resíduos agrícolas. Assim, para os experimentos práticos, foram usados três vegetais pela facilidade do acesso e rendimento da produção: cana-de-açúcar (bagaço da feira), bananeira (pseudocaule cortado após a colheita) e kozo (casca colhida anualmente), todos mantidos em sua cor natural sem branqueamento e trabalhados separadamente. Durante a formação do papel no bastidor, foram realizadas e registradas as seguintes operações: 1) uso de máscara na tela; 2) uso de marca d’água, com a colagem de objeto linear em relevo na tela ou com gotejamento de água sobre o papel pronto recém-formado; 3) uso de outros elementos na polpa, como a casca preta do kozo. Os processos de criação foram orientados pelos escritos de Fayga Ostrower, que estimularam a transformação da matéria pelo fazer concreto, e por Donis A. Dondis, que propõe caminhos de leitura e análise de dados visuais. 3. Resultados parciais A contextualização histórica e o levantamento bibliográfico revelaram uma lacuna significativa na produção acadêmica brasileira sobre o papel artesanal com fibras vegetais, especialmente no que se refere ao kozo. Os experimentos práticos geraram resultados plásticos variados, por exemplo com diferentes formas, texturas e graus de translucidez, demonstrando a potencialidade do papel como elemento constitutivo da linguagem gráfica para projetos de design e arte, sobretudo no âmbito editorial, como recurso comunicativo e expressivo. Além disso, o processo explicitou que o fazer artesanal pode proporcionar uma criação material fundada na sustentabilidade.
1. Introdução O artista e designer italiano Bruno Munari diz “[...] cada papel comunica sua qualidade, e isso é já uma razão para ser usado como comunicante” (Munari, 1998, p. 213). Explorando essa ideia, ele propôs, em 1949, uma série chamada Livros Ilegíveis, livros sem texto que instigam uma leitura sensorial da matéria, contrapondo-se à ideia do papel como simples suporte da leitura. No mesmo sentido, a artista Fayga Ostrower considera que a expressão “suporte” para se referir ao papel é equivocada, uma vez que ele possui qualidades que participam da expressividade da obra artística (Ostrower, 1999, p. 125). Partindo dessas colocações, essa pesquisa assume que o papel – e em especial o papel artesanal – carrega e transmite valores formais, plásticos e simbólicos. Objetiva, portanto, explorar e articular tais valores como expressão gráfica na construção de linguagem para a elaboração de livros, fazendo uso de fibras vegetais para a fabricação. 2. Procedimentos metodológicos Com natureza qualitativa e exploratória, a pesquisa é fundamentada na articulação entre teoria e prática. Entende-se, aqui, que o trabalho artesanal prático é também um trabalho intelectual. Iniciou-se com um levantamento sobre a história da fabricação de papel artesanal no Brasil, com o livro fundamental de Thérèse Hofmann Gatti, e sobre artistas que exploraram sua produção e materialidade, como Amelia Toledo e Antônio Dias. A pesquisa baseou-se em registros fotográficos, catálogos e livros. Verificou-se a escassez de publicações acadêmicas no país sobre a fabricação de papel artesanal com fibras vegetais ou sobre o uso desses papéis como recurso expressivo, sendo a primeira datada de 1991. Não foram encontradas pesquisas sobre o vegetal japonês kozo [Broussonetia papyrifera; Broussonetia kajinoki], planta tradicional na produção de papel, embora cultivada no Brasil desde 1976, conforme o livro Washi, de Koichi Matsuda (1994), uma das raras obras sobre o tema em português. Assim, evidenciou-se a necessidade de registrar o manejo e o processamento dessa fibra, utilizada nos experimentos práticos. A confecção artesanal permite o uso de diferentes plantas e o aproveitamento de resíduos agrícolas. Assim, para os experimentos práticos, foram usados três vegetais pela facilidade do acesso e rendimento da produção: cana-de-açúcar (bagaço da feira), bananeira (pseudocaule cortado após a colheita) e kozo (casca colhida anualmente), todos mantidos em sua cor natural sem branqueamento e trabalhados separadamente. Durante a formação do papel no bastidor, foram realizadas e registradas as seguintes operações: 1) uso de máscara na tela; 2) uso de marca d’água, com a colagem de objeto linear em relevo na tela ou com gotejamento de água sobre o papel pronto recém-formado; 3) uso de outros elementos na polpa, como a casca preta do kozo. Os processos de criação foram orientados pelos escritos de Fayga Ostrower, que estimularam a transformação da matéria pelo fazer concreto, e por Donis A. Dondis, que propõe caminhos de leitura e análise de dados visuais. 3. Resultados parciais A contextualização histórica e o levantamento bibliográfico revelaram uma lacuna significativa na produção acadêmica brasileira sobre o papel artesanal com fibras vegetais, especialmente no que se refere ao kozo. Os experimentos práticos geraram resultados plásticos variados, por exemplo com diferentes formas, texturas e graus de translucidez, demonstrando a potencialidade do papel como elemento constitutivo da linguagem gráfica para projetos de design e arte, sobretudo no âmbito editorial, como recurso comunicativo e expressivo. Além disso, o processo explicitou que o fazer artesanal pode proporcionar uma criação material fundada na sustentabilidade.
Palavras-chave: papel artesanal, fibras vegetais, livro artesanal, experimentação material, narrativa visual papel artesanal, fibras vegetais, livro artesanal, experimentação material, narrativa visual
DOI: 10.5151/1JPPD-0124
Referências bibliográficas
- [1] DONDIS, Donis A. Sintaxe da linguagem visual. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003. 240 p.
- [2] GATTI, Thérèse Hofmann. História do papel artesanal no Brasil. 1. ed. São Paulo: Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel – ABTCP, 2007. 150 p.
- [3] MUNARI, Bruno. Das coisas nascem coisas. 1. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998. 380 p.
- [4] OSTROWER, Fayga. Arte sobre papel: da gravura chinesa às imagens do computador. In: Doctors, Marcio (Org.). A cultura do papel. Rio de Janeiro: Casa da Palavra; Fundação Eva Klabin Rapaport, 1999. pp. 123-160
- [5] OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação. 30. ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2014. 188 p.
Como citar:
Pinto, Julia Junqueira Ribeiro; Mazzilli, Clice de Toledo Sanjar; "Fabricação de papel artesanal a partir de fibras vegetais como recurso expressivo", p-324-325.
In: 1º JPPD.
São Paulo: Blucher,
2026.
ISSN 23186968,
DOI 10.5151/1JPPD-0124
últimos 30 dias
2
downloads
2
visualizações
1
indexações
Sou autor desse trabalho
Você é citado neste trabalho?
Exportar citação - RefWork (RIS)
Copie a citação abaixo ou clique no botão Download para obter um arquivo com os dados
TY - CONF T1 - Fabricação de papel artesanal a partir de fibras vegetais como recurso expressivo JO - Blucher Design Proceedings VL - 14 IS - 3 SP - 324 EP - 325 PY - 2026 T2 - I Jornada Paulista de Pesquisa em Design AU - , SN - 23186968 DO - http://dx.doi.org/10.5151/1JPPD-0124 UR - www.proceedings.blucher.com.br/article-details/fabricacao-de-papel-artesanal-a-partir-de-fibras-vegetais-como-recurso-expressivo KW - papel artesanal, fibras vegetais, livro artesanal, experimentação material, narrativa visual ER -
Exportar citação - BibTeX(BIB)
Copie a citação abaixo ou clique no botão Download para obter um arquivo com os dados
@article{Pinto20144,
title="Fabricação de papel artesanal a partir de fibras vegetais como recurso expressivo",
journal="Blucher Design Proceedings",
volume="14",
number="3",
pages="324 - 325",
year="2026",
note="",
issn="23186968",
doi="http://dx.doi.org/10.5151/1JPPD-0124",
url="www.proceedings.blucher.com.br/article-details/fabricacao-de-papel-artesanal-a-partir-de-fibras-vegetais-como-recurso-expressivo",
author="Julia Junqueira Ribeiro Pinto", "Clice de Toledo Sanjar Mazzilli",
keywords="papel artesanal, fibras vegetais, livro artesanal, experimentação material, narrativa visual",
}
Exportar citação - Text(TXT)
Copie a citação abaixo ou clique no botão Download para obter um arquivo com os dados
Julia Junqueira Ribeiro Pinto, Clice de Toledo Sanjar Mazzilli, Fabricação de papel artesanal a partir de fibras vegetais como recurso expressivo, Blucher Design Proceedings, Volume 14, 2026, Pages 324-325, ISSN 23186968, http://dx.doi.org/10.5151/1JPPD-0124 (www.proceedings.blucher.com.br/article-details/fabricacao-de-papel-artesanal-a-partir-de-fibras-vegetais-como-recurso-expressivo) Palavras-chave:: papel artesanal, fibras vegetais, livro artesanal, experimentação material, narrativa visual;