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Formas e modos de expor arte africana: abordagens na exposição “Uma história do Poder na África”
Formas e modos de expor arte africana: abordagens na exposição “Uma história do Poder na África”
Xavier, Isabel; Santos, Maria Cecília Loschiavo dos
Artigo:
1. Introdução A prática de expografia em exposições de arte africana e afro diaspórica deve ser repensada e ressignificada para romper com a narrativa hegemônica que frequentemente a marginaliza. O artigo trata da pesquisa doutoral da autora principal, centrada em práticas expográficas contra hegemônicas e decoloniais, com abordagem que combina teoria e estudos de caso que revisam e questionam a forma e modos de expor, e que consideram exposições como espaços de resistência e afirmação identitária. Para tal, toma como um dos estudos de caso a exposição temporária “Uma história do poder na África”, montada no Museu Afro Brasil Emanoel Araujo (São Paulo - SP), em 2024. A exposição teve curadoria de Vanicléia Silva-Santos, projeto expográfico desenvolvido pela autora e foi composta por obras e objetos africanos de proveniências e tradições culturais díspares entre si. 2. A exposição “Uma história do poder na África” (2024) Com uma abordagem multidisciplinar, a exposição reuniu fotografias, pinturas, esculturas, récades, tronos, vestimentas, adornos, espadas, objetos funerários e de poder que indiciam seus usos simbólicos e rituais em diversos contextos no continente africano e da diáspora, abrangendo um período de quase 6.000 anos. O escopo físico da exposição, a partir da narrativa curatorial, teve como premissa traduzir em percurso intelectual e estético o repensar da história do poder na África, atualizada a partir das teorias de Cheikh Anta Diop (1974), cujos escritos ratificaram a África como berço da humanidade ao demonstrar o continente africano era ponto inicial e centro da história universal do mundo. A expografia teve como programa criar um espaço narrativo que revia um vasto conteúdo: obras de arte africana da coleção do Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, de sete museus brasileiros e de três coleções privadas, totalizando cerca de 150 itens históricos e contemporâneos, onde quase metade deste montante era de arte egípcia, produzida nos países do Egito e Sudão. Essa narrativa buscava ainda educar o público sobre a diversidade das artes africanas no continente, contar a história e contexto de produção desses objetos e de algumas das personalidades expostas. 3. Estratégias expográficas A configuração do espaço investiu em diálogo direto com o conceito de tempo circular, comum nas sociedades africanas (Diop, 1974), moldando a permeabilidade e circulação do espaço expositivo. Formas circulares se projetaram na planta e orientação da fruição da exposição, para refletir sobre a natureza infinita do tempo, através da trajetória individual e coletiva do visitante. Como estratégia expográfica foram utilizados mapas do continente africano junto aos textos curatoriais, destacando a origem diversa dos objetos situados em cada um dos cinco núcleos. A ação teve o intuito de reforçar a pluralidade e grandeza territorial africana, contrariando o pensamento homogeneizante ocidental (Mbembe, 2001), e de salientar a arte egípcia enquanto africana. Dentre as obras expostas, estava a réplica do trono do Reino de Daomé (atual Benim), cujo original foi tragicamente perdido no incêndio que ocorreu no Museu Nacional, em 2018. Reconstruído em papel machê por um estudante de escola pública do Rio de Janeiro, a réplica passou a fazer parte do acervo do Museu Nacional, e teve o mesmo modo expositivo dos demais tronos expostos, com extensas legendas explicitando suas proveniências e autorias. Na parede de abertura foi utilizado material reflexivo dourado que circundava e destacava o título da exposição construído em madeira pintada de vinho. O uso foi impulsionado pelo desejo de ter o visitante imbricado e refletido com a ideia conceitual do título da mostra e reforçar a acepção da potência ancestral e poder do território africano. Ao examinar procedimentos no modo de exibir arte e coleções africanas, e suas semiologias, a pesquisa orienta a expografia para práticas críticas de justiça social, reconhece novos sujeitos do fazer artístico e questiona estruturas coloniais (Vergès, 2023) que ainda sustentam práticas museológicas relacionadas ao assunto.
1. Introdução A prática de expografia em exposições de arte africana e afro diaspórica deve ser repensada e ressignificada para romper com a narrativa hegemônica que frequentemente a marginaliza. O artigo trata da pesquisa doutoral da autora principal, centrada em práticas expográficas contra hegemônicas e decoloniais, com abordagem que combina teoria e estudos de caso que revisam e questionam a forma e modos de expor, e que consideram exposições como espaços de resistência e afirmação identitária. Para tal, toma como um dos estudos de caso a exposição temporária “Uma história do poder na África”, montada no Museu Afro Brasil Emanoel Araujo (São Paulo - SP), em 2024. A exposição teve curadoria de Vanicléia Silva-Santos, projeto expográfico desenvolvido pela autora e foi composta por obras e objetos africanos de proveniências e tradições culturais díspares entre si. 2. A exposição “Uma história do poder na África” (2024) Com uma abordagem multidisciplinar, a exposição reuniu fotografias, pinturas, esculturas, récades, tronos, vestimentas, adornos, espadas, objetos funerários e de poder que indiciam seus usos simbólicos e rituais em diversos contextos no continente africano e da diáspora, abrangendo um período de quase 6.000 anos. O escopo físico da exposição, a partir da narrativa curatorial, teve como premissa traduzir em percurso intelectual e estético o repensar da história do poder na África, atualizada a partir das teorias de Cheikh Anta Diop (1974), cujos escritos ratificaram a África como berço da humanidade ao demonstrar o continente africano era ponto inicial e centro da história universal do mundo. A expografia teve como programa criar um espaço narrativo que revia um vasto conteúdo: obras de arte africana da coleção do Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, de sete museus brasileiros e de três coleções privadas, totalizando cerca de 150 itens históricos e contemporâneos, onde quase metade deste montante era de arte egípcia, produzida nos países do Egito e Sudão. Essa narrativa buscava ainda educar o público sobre a diversidade das artes africanas no continente, contar a história e contexto de produção desses objetos e de algumas das personalidades expostas. 3. Estratégias expográficas A configuração do espaço investiu em diálogo direto com o conceito de tempo circular, comum nas sociedades africanas (Diop, 1974), moldando a permeabilidade e circulação do espaço expositivo. Formas circulares se projetaram na planta e orientação da fruição da exposição, para refletir sobre a natureza infinita do tempo, através da trajetória individual e coletiva do visitante. Como estratégia expográfica foram utilizados mapas do continente africano junto aos textos curatoriais, destacando a origem diversa dos objetos situados em cada um dos cinco núcleos. A ação teve o intuito de reforçar a pluralidade e grandeza territorial africana, contrariando o pensamento homogeneizante ocidental (Mbembe, 2001), e de salientar a arte egípcia enquanto africana. Dentre as obras expostas, estava a réplica do trono do Reino de Daomé (atual Benim), cujo original foi tragicamente perdido no incêndio que ocorreu no Museu Nacional, em 2018. Reconstruído em papel machê por um estudante de escola pública do Rio de Janeiro, a réplica passou a fazer parte do acervo do Museu Nacional, e teve o mesmo modo expositivo dos demais tronos expostos, com extensas legendas explicitando suas proveniências e autorias. Na parede de abertura foi utilizado material reflexivo dourado que circundava e destacava o título da exposição construído em madeira pintada de vinho. O uso foi impulsionado pelo desejo de ter o visitante imbricado e refletido com a ideia conceitual do título da mostra e reforçar a acepção da potência ancestral e poder do território africano. Ao examinar procedimentos no modo de exibir arte e coleções africanas, e suas semiologias, a pesquisa orienta a expografia para práticas críticas de justiça social, reconhece novos sujeitos do fazer artístico e questiona estruturas coloniais (Vergès, 2023) que ainda sustentam práticas museológicas relacionadas ao assunto.
Palavras-chave: Expografia, Museografia, Acervo Etnográfico, Decolonialidade, Justiça social. Expografia, Museografia, Acervo Etnográfico, Decolonialidade, Justiça social.
DOI: 10.5151/1JPPD-0123
Referências bibliográficas
- [1] DIOP, Cheikh Anta. The African origin of civilization: myth or reality. Nova Iorque: L. Hill, 1974.
- [2] MBEMBE, Achille. As formas africanas de auto inscrição. Rio de Janeiro: Revista Estudos Afro-Asiáticos, Ano 23, n. 1, 2001, pp. 178-209.
- [3] VERGÈS, Françoise. Descolonizar o museu - Programa de desordem absoluta. São Paulo: Ubu, 2023.
Como citar:
Xavier, Isabel; Santos, Maria Cecília Loschiavo dos; "Formas e modos de expor arte africana: abordagens na exposição “Uma história do Poder na África”", p-321-323.
In: 1º JPPD.
São Paulo: Blucher,
2026.
ISSN 23186968,
DOI 10.5151/1JPPD-0123
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TY - CONF T1 - Formas e modos de expor arte africana: abordagens na exposição “Uma história do Poder na África” JO - Blucher Design Proceedings VL - 14 IS - 3 SP - 321 EP - 323 PY - 2026 T2 - I Jornada Paulista de Pesquisa em Design AU - , SN - 23186968 DO - http://dx.doi.org/10.5151/1JPPD-0123 UR - www.proceedings.blucher.com.br/article-details/formas-e-modos-de-expor-arte-africana-abordagens-na-exposicao-uma-historia-do-poder-na-africa KW - Expografia, Museografia, Acervo Etnográfico, Decolonialidade, Justiça social. ER -
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Isabel Xavier, Maria Cecília Loschiavo dos Santos, Formas e modos de expor arte africana: abordagens na exposição “Uma história do Poder na África”, Blucher Design Proceedings, Volume 14, 2026, Pages 321-323, ISSN 23186968, http://dx.doi.org/10.5151/1JPPD-0123 (www.proceedings.blucher.com.br/article-details/formas-e-modos-de-expor-arte-africana-abordagens-na-exposicao-uma-historia-do-poder-na-africa) Palavras-chave:: Expografia, Museografia, Acervo Etnográfico, Decolonialidade, Justiça social.;