Blucher Philosophy Proceedings
- Todas as edições
- Última edição
- Equipe de Produção
- ISSN 2358-6567
NOTAS SOBRE A CONCEPÇÃO DE EXPERIÊNCIA NO JOVEM WALTER BENJAMIN
NOTAS SOBRE A CONCEPÇÃO DE EXPERIÊNCIA NO JOVEM WALTER BENJAMIN
Artigo:
Apesar das várias transformações e rearranjos conceituais que acometeram o problema daexperiência (Erfahrung) ao longo do percurso intelectual de Walter Benjamin, trata-se ainda de um dos poucostemas que perpassa toda sua obra. Com efeito, o conceito benjaminiano de experiência carrega certaspeculiaridades em relação à inserção estrita no interior de uma reflexão sobre o conhecimento, como fizeramAristóteles e Kant. Para além dessa restrição, ele se enquadra em uma dimensão mais ampla da relação entrehomem e mundo, compreendendo características relativas ao conhecimento, à ação, à sensibilidade, àcomunicação, à fé, dentre outros aspectos da experiência humana predominantes ao longo de um determinadocontexto histórico, cultural e social. Em meio a isso, pode ser identificada uma tendência que orienta suasreflexões, desde os escritos produzidos nos tenros anos de juventude até aqueles redigidos sob o horizontesombrio da Europa dos anos 30, a saber, a posição crítica em relação à experiência de seu próprio tempo. Em1913, em um de seus primeiros escritos, intitulado precisamente “Experiência”, Benjamin critica a vulgaridadefilisteia e a falta de sentido com as quais os adultos costumam agir no início do século XX. Eles dedicam suasvidas a frustrar e suprimir sonhos e aspirações juvenis, relegando-os a mera animosidade que aquece todos osespíritos joviais e desaparece inevitavelmente com o estabelecimento da vida adulta: “mascarados” por umaexperiência imóvel e impenetrável, os adultos se armam contra os argumentos dos jovens que procuram seemancipar de sua tutela intelectual. Alguns anos depois, precisamente entre 1917 e 1918, em Sobre oprograma da filosofia vindoura, Benjamin elabora uma crítica ao sistema de Kant, especialmente ao carátermatemático-mecânico limitado e empobrecido de seu conceito de experiência, supostamente influenciado pelaWeltanschauung do Iluminismo. Benjamin propõe uma reforma da filosofia pela extensão da perspectivakantiana através da fundação de um conceito metafísico de experiência, que incluiria não só o conhecimento,mas também a arte, a história e a religião; é uma substituição do paradigma matemático-mecânico por umbaseado na dimensão criativa da linguagem que permite tal extensão. Ao longo da década de 30, o problemada experiência desempenha novamente um papel central nas obras de Benjamin, enquanto declínio daexperiência coletiva. Suas reflexões durante esse período examinam as consequências históricas, políticas esociais de tal declínio, bem como formulam um diagnóstico crítico de uma nova e ascendente configuração daexperiência, cujo nome é vivência (Erlebnis). Todavia, pretende-se concentrar neste artigo apenas no períodoinicial, marcado por uma perspectiva idealista; não obstante isso, discute-se também alguns pontos quepermitem conectar essa perspectiva inicial aos desenvolvimentos materialistas dos escritos tardios.
Apesar das várias transformações e rearranjos conceituais que acometeram o problema daexperiência (Erfahrung) ao longo do percurso intelectual de Walter Benjamin, trata-se ainda de um dos poucostemas que perpassa toda sua obra. Com efeito, o conceito benjaminiano de experiência carrega certaspeculiaridades em relação à inserção estrita no interior de uma reflexão sobre o conhecimento, como fizeramAristóteles e Kant. Para além dessa restrição, ele se enquadra em uma dimensão mais ampla da relação entrehomem e mundo, compreendendo características relativas ao conhecimento, à ação, à sensibilidade, àcomunicação, à fé, dentre outros aspectos da experiência humana predominantes ao longo de um determinadocontexto histórico, cultural e social. Em meio a isso, pode ser identificada uma tendência que orienta suasreflexões, desde os escritos produzidos nos tenros anos de juventude até aqueles redigidos sob o horizontesombrio da Europa dos anos 30, a saber, a posição crítica em relação à experiência de seu próprio tempo. Em1913, em um de seus primeiros escritos, intitulado precisamente “Experiência”, Benjamin critica a vulgaridadefilisteia e a falta de sentido com as quais os adultos costumam agir no início do século XX. Eles dedicam suasvidas a frustrar e suprimir sonhos e aspirações juvenis, relegando-os a mera animosidade que aquece todos osespíritos joviais e desaparece inevitavelmente com o estabelecimento da vida adulta: “mascarados” por umaexperiência imóvel e impenetrável, os adultos se armam contra os argumentos dos jovens que procuram seemancipar de sua tutela intelectual. Alguns anos depois, precisamente entre 1917 e 1918, em Sobre oprograma da filosofia vindoura, Benjamin elabora uma crítica ao sistema de Kant, especialmente ao carátermatemático-mecânico limitado e empobrecido de seu conceito de experiência, supostamente influenciado pelaWeltanschauung do Iluminismo. Benjamin propõe uma reforma da filosofia pela extensão da perspectivakantiana através da fundação de um conceito metafísico de experiência, que incluiria não só o conhecimento,mas também a arte, a história e a religião; é uma substituição do paradigma matemático-mecânico por umbaseado na dimensão criativa da linguagem que permite tal extensão. Ao longo da década de 30, o problemada experiência desempenha novamente um papel central nas obras de Benjamin, enquanto declínio daexperiência coletiva. Suas reflexões durante esse período examinam as consequências históricas, políticas esociais de tal declínio, bem como formulam um diagnóstico crítico de uma nova e ascendente configuração daexperiência, cujo nome é vivência (Erlebnis). Todavia, pretende-se concentrar neste artigo apenas no períodoinicial, marcado por uma perspectiva idealista; não obstante isso, discute-se também alguns pontos quepermitem conectar essa perspectiva inicial aos desenvolvimentos materialistas dos escritos tardios.
Palavras-chave:
DOI: 10.5151/sofia2017-03
Referências bibliográficas
- [1] BENJAMIN, W. Gesammelte Schriften. Hrsg. von Rolf Tiedemann und Hermann Schweppenhäuser.
- [2] 7 Bände. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1972-1991.
- [3] ______. “‘Experiência’” in: Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação. Tradução,
- [4] apresentação e notas: Marcus Vinícius Mazzari; posfácio: Flávio Di Giorgi. São Paulo: Duas Cidades;
- [5] Ed 34, 2002.
- [6] ______. “Sobre a linguagem em geral e sobre a linguagem do homem” in: Escritos sobre mito e
- [7] linguagem (1915-1921). Organização, apresentação e notas: Jeanne Marie Gagnebin; tradução:
- [8] Susana Kampff Lages e Ernani Chaves. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2011.
- [9] CAYGILL, H. Walter Benjamin. The Colour of Experience. London; New York: Routledge, 1998.
- [10] HEIDEGGER, M. “A essência da linguagem” in: A caminho da linguagem. Tradução: Márcia Sá
- [11] Cavalcante Schuback. Petrópolis: Vozes, 2003.
- [12] MITROVITCH, C. Experiência e formação em Walter Benjamin. São Paulo: UNESP, 2011.
- [13] MURICY, K. Alegorias da dialética. Imagem e pensamento em Walter Benjamin. Rio de Janeiro:
- [14] Nau, 2009.
- [15] OLIVEIRA, E. V. Os conceitos de crítica e experiência no jovem Benjamin: o programa de 1917-18.
- [16] Dissertação (Mestrado em Filosofia) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas,
- [17] Departamento de Filosofia, Programa de Pós-Graduação em Filosofia, Universidade de São Paulo,
- [18] São Paulo, 1999.
- [19] _____. Um mestre da crítica: romantismo, mito e Iluminismo em Walter Benjamin. Tese
- [20] (Doutorado em Filosofia) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Departamento de
- [21] Filosofia, Programa de Pós-Graduação em Filosofia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009.
- [22] SCHOLEM, G. Walter Benjamin: a história de uma amizade. Tradução: Geraldo Gerson de Souza,
- [23] Natan Nobert Zins e J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 2008.
- [24] WEBER, T. “Erfahrung”, in: OPITZ, M.; WIZISLA, E. (Hrsg.). Benjamins Begriffe. 2 bd. Frankfurt am
- [25] Main: Suhrkamp, 2000.
Como citar:
Lama, Fernando Araújo Del; "NOTAS SOBRE A CONCEPÇÃO DE EXPERIÊNCIA NO JOVEM WALTER BENJAMIN", p-50-64.
In: .
São Paulo: Blucher,
2018.
ISSN 23586567,
DOI 10.5151/sofia2017-03
últimos 30 dias
190
downloads
686
visualizações
878
indexações
Sou autor desse trabalho
Você é citado neste trabalho?
Exportar citação - RefWork (RIS)
Copie a citação abaixo ou clique no botão Download para obter um arquivo com os dados
TY - CONF T1 - NOTAS SOBRE A CONCEPÇÃO DE EXPERIÊNCIA NO JOVEM WALTER BENJAMIN JO - Blucher Philosophy Proceedings VL - 2 IS - 1 SP - 50 EP - 64 PY - 2018 T2 - Symposium of Philosophical and Academic Advising AU - SN - 23586567 DO - http://dx.doi.org/10.5151/sofia2017-03 UR - www.proceedings.blucher.com.br/article-details/notas-sobre-a-concepo-de-experincia-no-jovem-walter-benjamin-29548 KW - ER -
Exportar citação - BibTeX(BIB)
Copie a citação abaixo ou clique no botão Download para obter um arquivo com os dados
@article{Lama20144,
title="NOTAS SOBRE A CONCEPÇÃO DE EXPERIÊNCIA NO JOVEM WALTER BENJAMIN",
journal="Blucher Philosophy Proceedings",
volume="2",
number="1",
pages="50 - 64",
year="2018",
note="",
issn="23586567",
doi="http://dx.doi.org/10.5151/sofia2017-03",
url="www.proceedings.blucher.com.br/article-details/notas-sobre-a-concepo-de-experincia-no-jovem-walter-benjamin-29548",
author="Fernando Araújo Del Lama",
keywords="",
}
Exportar citação - Text(TXT)
Copie a citação abaixo ou clique no botão Download para obter um arquivo com os dados
Fernando Araújo Del Lama, NOTAS SOBRE A CONCEPÇÃO DE EXPERIÊNCIA NO JOVEM WALTER BENJAMIN, Blucher Philosophy Proceedings, Volume 2, 2018, Pages 50-64, ISSN 23586567, http://dx.doi.org/10.5151/sofia2017-03 (www.proceedings.blucher.com.br/article-details/notas-sobre-a-concepo-de-experincia-no-jovem-walter-benjamin-29548) Palavras-chave:: ;