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O bordado artesanal tradicional e suas repercussões simbólicas no contexto do projeto de Design de Moda brasileiro
O bordado artesanal tradicional e suas repercussões simbólicas no contexto do projeto de Design de Moda brasileiro
Bueno, Elisa Rocha; Bamonte, Joedy Luciana Barros Marins
Artigo:
1. Processos de significação do Bordado artesanal tradicional Foram identificados durante a pesquisa três processos de significação do bordado artesanal tradicional. Dentre eles, dois foram engendrados por contingências históricas e socioculturais que concorreram para a cristalização da noção correntemente atribuída à técnica têxtil em questão. Um deles diz respeito à vinculação dos fazeres têxteis ao gênero feminino, em especial àqueles localizados fora de um circuito formal de trabalho (Parker, 2010). Esta gradual associação resultou na transferência dos atributos “femininos” para a técnica, afetando tanto a prática em si, quanto os artefatos resultantes. Isto significa que os aspectos materiais do bordado, sua aparência, passam a funcionar como índice de uma feminilidade aos moldes tradicionais: frágil, pueril, delicada, indefesa, doce, etc. O segundo processo de significação de natureza histórica e sociocultural que contribui para a conformação do campo semântico do bordado é sua classificação como prática artesanal. A categoria “artesanato”, de um perspectiva ocidental, é cercada de preconceitos desde a antiguidade. A interpretação europeia, sobretudo ibérica, do artesanato, é a de um conjunto de atividades inferiores perante outras de teor puramente intelectual (Cunha, 2005). Esta mesma noção é a que chega ao Brasil, trazida pelos colonizadores portugueses. Ainda que o preconceito em solo nacional vá sofrer um agravamento por conta do emprego de trabalho escravo e a importação da classificação hierárquica denotada pelo conceito de “Belas-Artes”, o artesanato, de um modo geral, passa a ser valorizado em meados de século XX. Isto ocorre porque neste período verifica-se um esforço institucional orientado para a solidificação da ideia de nação brasileira, e, neste contexto, manifestações artesanais são entendidas como recursos para promover os atributos de lastro e tradição, necessários para a legitimação de uma entidade político-territorial (Hall, 2015). O terceiro processo identificado advém da qualidade do bordado artesanal tradicional enquanto linguagem visual, o que o caracteriza como uma técnica de propósitos gráficos (Pereira, 2023). Se do ponto de vista da tradição o bordado tinha por objetivo o adorno e a decoração, em especial das bordas de tecidos, nos séculos XX e XXI percebe-se seu emprego matizado por premissas profundamente subjetivas, o que resulta em configurações estéticas que se distanciam do repertório convencional da técnica e que passam a expressar significados outros além daqueles histórica e culturalmente determinados. 2. O bordado artesanal no produto de moda nacional O produto de moda, bem como os demais produtos resultantes de processos de design, compreende aspectos materiais e simbólicos. Isto quer dizer que todo e qualquer elemento agregado ao projeto de vestuário irá contribuir não apenas para seu efeito estético, como também para o seu campo semântico. Por este motivo, no caso do emprego do bordado artesanal tradicional em projetos de design de moda, entende-se que os processos de significação aferidos afetariam o significado geral da peça de roupa resultante. Isto pôde ser verificado ao serem analisadas as produções dos renomados designers de moda brasileiros Zuzu Angel e Ronaldo Fraga. Às criações de ambos profissionais são imputados adjetivos como autenticamente brasileiras, femininas e políticas. Tais qualidades não se manifestam de maneira uniforme ou síncrona em todas as coleções, tampouco do mesmo modo nos trabalhos de Angel e Fraga. Ainda assim, a ocorrência do bordado artesanal tradicional em seus modelos contribui para que noções de brasilidade, feminilidade e valores mais subjetivos sejam evocados pelas peças de roupa.
1. Processos de significação do Bordado artesanal tradicional Foram identificados durante a pesquisa três processos de significação do bordado artesanal tradicional. Dentre eles, dois foram engendrados por contingências históricas e socioculturais que concorreram para a cristalização da noção correntemente atribuída à técnica têxtil em questão. Um deles diz respeito à vinculação dos fazeres têxteis ao gênero feminino, em especial àqueles localizados fora de um circuito formal de trabalho (Parker, 2010). Esta gradual associação resultou na transferência dos atributos “femininos” para a técnica, afetando tanto a prática em si, quanto os artefatos resultantes. Isto significa que os aspectos materiais do bordado, sua aparência, passam a funcionar como índice de uma feminilidade aos moldes tradicionais: frágil, pueril, delicada, indefesa, doce, etc. O segundo processo de significação de natureza histórica e sociocultural que contribui para a conformação do campo semântico do bordado é sua classificação como prática artesanal. A categoria “artesanato”, de um perspectiva ocidental, é cercada de preconceitos desde a antiguidade. A interpretação europeia, sobretudo ibérica, do artesanato, é a de um conjunto de atividades inferiores perante outras de teor puramente intelectual (Cunha, 2005). Esta mesma noção é a que chega ao Brasil, trazida pelos colonizadores portugueses. Ainda que o preconceito em solo nacional vá sofrer um agravamento por conta do emprego de trabalho escravo e a importação da classificação hierárquica denotada pelo conceito de “Belas-Artes”, o artesanato, de um modo geral, passa a ser valorizado em meados de século XX. Isto ocorre porque neste período verifica-se um esforço institucional orientado para a solidificação da ideia de nação brasileira, e, neste contexto, manifestações artesanais são entendidas como recursos para promover os atributos de lastro e tradição, necessários para a legitimação de uma entidade político-territorial (Hall, 2015). O terceiro processo identificado advém da qualidade do bordado artesanal tradicional enquanto linguagem visual, o que o caracteriza como uma técnica de propósitos gráficos (Pereira, 2023). Se do ponto de vista da tradição o bordado tinha por objetivo o adorno e a decoração, em especial das bordas de tecidos, nos séculos XX e XXI percebe-se seu emprego matizado por premissas profundamente subjetivas, o que resulta em configurações estéticas que se distanciam do repertório convencional da técnica e que passam a expressar significados outros além daqueles histórica e culturalmente determinados. 2. O bordado artesanal no produto de moda nacional O produto de moda, bem como os demais produtos resultantes de processos de design, compreende aspectos materiais e simbólicos. Isto quer dizer que todo e qualquer elemento agregado ao projeto de vestuário irá contribuir não apenas para seu efeito estético, como também para o seu campo semântico. Por este motivo, no caso do emprego do bordado artesanal tradicional em projetos de design de moda, entende-se que os processos de significação aferidos afetariam o significado geral da peça de roupa resultante. Isto pôde ser verificado ao serem analisadas as produções dos renomados designers de moda brasileiros Zuzu Angel e Ronaldo Fraga. Às criações de ambos profissionais são imputados adjetivos como autenticamente brasileiras, femininas e políticas. Tais qualidades não se manifestam de maneira uniforme ou síncrona em todas as coleções, tampouco do mesmo modo nos trabalhos de Angel e Fraga. Ainda assim, a ocorrência do bordado artesanal tradicional em seus modelos contribui para que noções de brasilidade, feminilidade e valores mais subjetivos sejam evocados pelas peças de roupa.
Palavras-chave: Design de Moda; Planejamento de Produto; Bordado Artesanal; Semântica do Produto Design de Moda; Planejamento de Produto; Bordado Artesanal; Semântica do Produto
DOI: 10.5151/1JPPD-0011
Referências bibliográficas
- [1] CUNHA, L. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata. São Paulo: Editora UNESP, 2005.
- [2] HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: Lamparina, 2015.
- [3] PARKER, R. The subversive stitch: embroidery and the making of the feminine. Nova Iorque: I. B. Tauris, 2010.
- [4] PEREIRA, M. C. G. Bordado: sua história e seus silêncios. Belo Horizonte: Miguilim, 2023.
Como citar:
Bueno, Elisa Rocha; Bamonte, Joedy Luciana Barros Marins; "O bordado artesanal tradicional e suas repercussões simbólicas no contexto do projeto de Design de Moda brasileiro", p-31-32.
In: 1º JPPD.
São Paulo: Blucher,
2026.
ISSN 23186968,
DOI 10.5151/1JPPD-0011
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TY - CONF T1 - O bordado artesanal tradicional e suas repercussões simbólicas no contexto do projeto de Design de Moda brasileiro JO - Blucher Design Proceedings VL - 14 IS - 3 SP - 31 EP - 32 PY - 2026 T2 - I Jornada Paulista de Pesquisa em Design AU - , SN - 23186968 DO - http://dx.doi.org/10.5151/1JPPD-0011 UR - www.proceedings.blucher.com.br/article-details/o-bordado-artesanal-tradicional-e-suas-repercussoes-simbolicas-no-contexto-do-projeto-de-design-de-moda-brasileiro KW - Design de Moda; Planejamento de Produto; Bordado Artesanal; Semântica do Produto ER -
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Elisa Rocha Bueno, Joedy Luciana Barros Marins Bamonte, O bordado artesanal tradicional e suas repercussões simbólicas no contexto do projeto de Design de Moda brasileiro, Blucher Design Proceedings, Volume 14, 2026, Pages 31-32, ISSN 23186968, http://dx.doi.org/10.5151/1JPPD-0011 (www.proceedings.blucher.com.br/article-details/o-bordado-artesanal-tradicional-e-suas-repercussoes-simbolicas-no-contexto-do-projeto-de-design-de-moda-brasileiro) Palavras-chave:: Design de Moda; Planejamento de Produto; Bordado Artesanal; Semântica do Produto;